29.11.04

A Fuga

Todos os dias, depois de tomar o pequeno-almoço, punha-se a caminho da praia!
Todos os dias o mesmo ritual, como eram rituais e monótonos os seus dias de mulher, bem casada e sem filhos.
Pelo caminho ia absorvendo cores e aromas, mas mesmo desviando um pouco ao fim de algum tempo já os conhecia a todos e até os antecipava.
Chegada à praia, tirava os sapatos e percorria a orla do mar até chegar às rochas, lá ao fundo.
Voltava…voltava sempre!
Naquele dia não voltou; ainda de sapatos na mão, com o olhar procurando o horizonte, foi entrando de mansinho e deixou-se banhar por esse mar imenso.
Ninguém a viu desaparecer por detrás das rochas.
As buscas foram infrutíferas; até hoje, já lá vão mais de 30 anos, ninguém soube ao certo o que terá acontecido.
Mas numa pequena aldeia piscatória, em Espanha, perto da fronteira, uma mulher sorri sempre que alguém fala de afogados.
Abana a cabeça e só diz:
Quiçá, quiçá…

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