23.10.05

Ond'anda?


É uma mãe dedicada e uma avó babada, como se ousa dizer…
Há mais de 20 anos que é a única provedora da educação duma jovenzinha um tanto ou quanto rebelde, um tanto ou quanto amorosa e linda. É uma das mulheres de fibra da minha família. Ultrapassou, por vezes sozinha, reveses e dificuldades que só ela sabe, pois pouco se queixa quando a vida é pior que madrasta, que essa até lhe dedica grande amizade.
Paby, que é tão diferente de mim, tão cheia de valor, mas que em certas ocasiões gosta de imitar a mãe, que admira.
Que o amor que me dedicas não seja razão para muito sofreres quando me for embora, mas para me recordares como a mãe de quem serás sempre a “minha menina”.
Que eu ouça ainda por muitos anos felizes a tua frase de carinho e cuidado:
Ond’anda?



22.10.05

A Violação


Ele era um rapagão, olhos claros, entre o cinza e o azul, olhar meigo, bem constituído, músculos trabalhados.
E depois vestia bem, cheirava bem, um andar descontraído, de modelo em passerelle.
Não se lhe conheciam namoradas (os) ou ligações que levassem a um compromisso.
Por isso foi com espanto que souberam que tinha sido acusado de violação por uma jovem lá bem do norte, onde só lá vai quem está doente ou sofre neurastenia.
O que não se sabia era que aquela jovem era nem mais nem menos a sua própria irmã.
Quem lhe pusera o processo foi o namorado desta, rapaz buçal e analfabeto a atirar para brutamontes e que prometera meter-lhe a faca na barriga caso justiça não fosse feita.
Ora acontece que Luciano tinha meios de provar que não fora ele o autor de acto tão miserável e covarde.
Inês, por seu lado, não tinha maneira de confirmar ou desmentir,

sofria de um ligeiro atrasado mental desde a nascença e mesmo o que dizia não era de fiar.
Luciano foi adiando o julgamento conforme pôde, de maneira a organizar a sua defesa, para o que contratara um excelente advogado.
Lá na aldeia Inês continuava a sua vida feliz de quem não sabe o que é sofrimento, excepto o físico, e esse era robusto e saudável.
Já o namorado, roído de ciúme, assim que a noite caía era vê-lo a deambular pelos montes, falando sozinho e derrubando tudo à sua frente.
Tudo começara com uma desconfiança, a barriga de Inês a crescer, a menstruação que nunca mais chegava, constatava a mãe, que fora a primeira a levantar suspeitas.
Depois do julgamento em que Luciano foi considerado inocente, a chegada da primavera tinha trazido também
a razão do estado de Inês, nada menos que uma gravidez histérica, ela continuava mocinha como sempre, inocente e virgem.
O Chico silenciou e descaiu como um fardo que se esvazia, andava macambúzio, sem compreender lá muito bem essas coisas nervosas e porque aconteciam.
De exaltado passou a um farrapo que se arrasta penosamente pelos cantos e recantos, “aiando” de vez em quando.
Confessando-se amiúde, fez do sr. Padre o seu confidente, só ele sabendo portanto da sua grande paixão por Luciano.


16.10.05

O Amolador


Sempre que ele passa eu recuo no tempo e volto ao da minha meninice em que pela rua do Bonfim passava o “amola tesouras e facas!”…
Este afia na linha e conserta também guarda-chuvas.
Ouço-o várias vezes na sua gaita-de-beiços e invariavelmente sinto desejos de lhe tirar uma fotografia.
Hoje calhou que ia a sair e lá vinha ele.
Pedi-lhe licença e saiu esta foto que ele disse irá querer uma prova.
Assim será, com os meus agradecimentos.

9.10.05

A Outra Face


Roberta não se atrevia a aproximar-se mais do que o suficiente, apenas para verificar se ele respirava. Entendia apenas um ruído, um estertor, arquejando ao mesmo tempo que tentava dizer-lhe qualquer coisa.
Foi então que começou a ver uma quantidade de sangue que lhe saía da manga da camisa e alastrava pelo chão, onde tinha caído de borco.
Recuou, sentou-se numa cadeira e ficou a olhá-lo, estupidificada, sem força nem vontade de o socorrer ou pedir ajuda.
Aos poucos ele deixou de se mexer e já era dia quando Roberta saiu daquele estupor, calmamente, friamente, arranjou-se, meteu uma pequena muda de roupa num saco e foi hospedar-se num modesto hotel, perto da praia.
Precisava pensar para não ser acusada do crime de falta de assistência à vítima.
Quando o telemóvel tocou deu um salto, pois estava embrenhada nos seus pensamentos, ainda mais porque pouca gente tinha aquele número... quase desmaiou quando ouviu a voz do marido, forte e saudável, que lhe perguntava:
-ONDE É QUE ANDAS?
Tremendo, deixou cair o telefone e ficou a olhar para ele como se mordesse,,,
-ONDE ESTÁS? Voltou a voz, tão alto e tão irritado que se podia ouvir distintamente.
Estou…estou na rua, vim fazer umas compras. E tu? Estás bem?
-não, não estou, com um morto em casa, como podia…? E a Lina foi para o hospital com ferimentos graves.
Não entendia nada, mas apenas balbuciou:
-vou já!
Acabou por entender que no escuro, e no seu desejo, confundira o vulto como se fosse o do marido quando se tratava de um assaltante e perigoso, que depois de ter atacado a empregada e já muito ferido com as facadas que esta lhe desfechara se dirigiu corredor fora à procura duma saída e de socorro.
Incrível como tudo parecia ser de uma outra forma. A verdade caiu à sua frente, como se fosse um muro que desabasse.
Lina, a brava Lina, ainda ficou uma semana no hospital, mas recuperou fisicamente o que não pôde psicologicamente, por isso deixou a casa.
Quando três meses e meio depois Roberta abateu a tiro o homem que era suposto ser um assaltante, mas que afinal se veio a confirmar ser o marido, que no escuro ela confundiu, tinha arranjado o perfeito álibi, até porque ela estava demasiado ferida para que a policia não acreditasse.



Despojos

sou2rQuando, passados dois meses, Roberta apareceu em casa do pai a sangrar do nariz, consequência de uma “embirração” com a porta do quarto, disse ela, nada fazia prever que essa “embirração” começasse a ser sistemática.
Só quando teve que ir para o hospital, com o maxilar partido, se tornou claro que o marido para além de lhe infringir maus-tratos, a mantinha dominada psicologicamente.
Já era notório o seu temperamento violento quando certa vez entrara em confronto por causa duma pequena viagem que Roberta queria fazer com a avó a casa de uns parentes que viviam mais a norte.
Daí a partir para a agressão física foi um pequeno passo. Roberta evitava discussões, que a propósito de qualquer frase degenerava para um descontrolo capaz de gerar uma cena de violência imparável, com insultos e agressões de toda a ordem.
Ela ia suportando tudo, em silêncio, por vergonha, sempre na esperança que tudo melhorasse depois dele lhe pedir perdão e prometer, chorando, que tudo ia mudar…etc. etc.
História já conhecida de todos nós e sempre com o mesmo fim, isto é, sem fim à vista.
Uma noite Roberta ouviu-o chegar, batendo com as portas; coração acelerado esperou que ele se deitasse sem a incomodar, como às vezes acontecia. Já dormiam em quartos separados desde que numa noite Roberta teve de ir receber assistência ao hospital com um pulso partido, que ele nunca lhe batia na cara para não a desfigurar e as pessoas não se aperceberem do que realmente se passava naquele casal tão aparentemente amoroso.
Coração batendo Roberta aproximou-se da porta e escutava-o andar de um lado para o outro, tropeçando aqui e acolá, por certo já embriagado.
Começou a tremer e a rezar, pedindo a Deus que o afastasse da sua porta, da sua cama, do seu corpo.
Mas foi esse corpo que ele violentou, violando, mais do que isso, a dignidade da mulher, depositando nele o sémen de que resultaria um ser não desejado, que Roberta, ao princípio, odiou mais do que se possa imaginar, mas que durou apenas o tempo do seu desamor.
Seguiu-se uma paz morna e podre, feita de renúncias e despojos, uns tempos sem história em que mal se viam, presumindo Roberta que outra mulher ocupava na vida do marido o lugar que ela definitivamente recusava ocupar.
Mas naquela madrugada, ainda escuro, acordou com o bater da porta, fazendo-a recuar tempos atrás, ficando à escuta…ele entrou no quarto, com olhar alucinado, estendeu um braço na direcção dela e caiu desamparado a meio do caminho.






8.10.05

O Noivado

nivosEra uma roda-viva de última hora!
A baixela estava a chegar, as vitualhas viriam mais tarde.
A festa prometia ser um acontecimento bem sucedido, para isso contribuíram os esforços de todos, pai, irmãos, tios e afins.
Roberta estava feliz e nervosa, como é de costume as noivas estarem.
Levantara-se cedo, tinha ido ao cabeleireiro antes do pequeno-almoço e quando saíra eram já horas do almoço, que tomou com a avó, num restaurantezinho perto da praça onde ela vivia. Há hábitos que custam a passar. Apesar de estar viúva desde os 62 anos, a avó não deixara de fazer as mesmas coisas que fazia enquanto casada, após o tempo de luto, bem entendido. O almoço no restaurante da praceta era um deles.
Suspirou fundo para banir pensamentos menos adequados a dia tão glorioso, como decerto seria aquele.
Com mãos trémulas a avó colocou-lhe na lapela do casaco uma pequena jóia que tinha por sua vez recebido de sua
mãe, antes de morrer. E assim se faz a passagem de testemunhos, numa continuidade de gestos e intenções.
Tinha sido propositadamente que se tinha encontrado com aquela avó, que adorava, ela lhe transmitia serenidade, paz…ela não iria à festa, tinha-se desculpado com um argumento que não dava lugar a recusa…queria estar perto, sem mais ninguém. Roberta não só aceitou como compreendia muito bem o ponto de vista da avó.
Também ela gostaria de estar perto do seu noivo, sem mais ninguém, mas o pai insistira; afinal era filha única e a mãe fizera pressão, embora há já muito tempo que se separara deles para seguir uma carreira que a tinha levado para longe.
Quando regressou a casa já as tendas tinham sido erguidas, as mesas postas, o bar pronto a funcionar, criados se movimentando com cadeiras, arranjos de flores e velas e alguém se tinha encarregue dos cartões dos convidados com as marcações dos lugares nas mesas.
Visto que nenhuma ajuda era necessária retirou-se para o seu quarto, onde fez dois telefonemas e se preparou para mergulhar num banho gostoso e relaxante.
Já estava pronta antes mesmo de chegarem os primeiros convidados, a família recebendo a família do noivo. Colocou no decote generoso o alfinete que a avó lhe dera, para a ter presente.
A mãe chegou, bela como sempre, inigualável, rodeada dos seus colaboradores e alguns convidados.
O pedido de casamento seria só para oficializar uma relação há muito aceite pelas duas famílias.
Por tudo isto e depois de um casamento faustoso na quinta dos pais do noivo, celebrado na capela pelo pároco da aldeia, que ainda pertencia á família, seria de esperar que a conclusão seria “E Viveram Felizes para Sempre”, mas assim não foi…

7.10.05

Saí agora do emprego...
Está muito enevoado e tive frio, será que já é Outono!

6.10.05

Atrasos de Vida

Se há coisa que me deixa positivamente fora de mim é a estupidez!
Quando aliada á prepotência é como se fosse ao quadrado, no mínimo.
Quando se trata de pura embirração já é ao cubo.
Mas pior ainda é quando a acrescentar a estas "qualidades" temos a maldade de quem é positivamente inferior.
Aqui a potência aumenta assustadoramente.
E disto tudo fazem culto.
Temos o chamado...(e aqui tinha um palavrão de arrepiar...por isso vou à procura dum significado, se houver!) *********(inventem vocês, como lhes der mais gozo), falhado? mas se eles até têm poder! vá lá...atrasado mental , inepto...e dizer assim é ás vezes a única forma de expurgar o mal.
O dano feito aos outros está numa proporção directa…quanto mais “mentecapto” mais dano…
Infelizmente tenho encontrado alguns pelo caminho, mas estar numa posição subalterna, por muito que uma pessoa barafuste e defenda o seu ponto de vista, é como “marrar” contra a parede.
Daí que a solução seja passar por cima e ter aquele olhar de quem pensa e É superior.
Tudo isto porque usar a Internet duma empresa não parece ser, para algumas pessoas, “uma boa ideia”, mesmo que o PC seja textualmente um PC.
Não me conseguiram explicar mais nada, se calhar porque não há explicação capaz de convencer quem quer que seja.
E assim vai o mundo numa terrinha onde se deseja um choque tecnológico, onde as crianças já nascem, não de dedo na boca, mas de dedos no teclado… e alguns ficam a chuchar no dedo. A ignorância é tal que mete medo; até parece que a Net é privilégio dos iluminados, pensam eles…
Foi um desabafo, já tenho aqui dito alguns, e como a vingança se serve fria, dizem, estou a pensar numa maneira de fazer sentir que a “faca e o queijo” que têm na mão lhes pode servir de pouco quando a inteligência supera a mediocridade.
Pena é que este País tenha em postos lá em cima, com “faca e queijo” nas mãos, pessoas como estas e façam dele uma terra de “atrasados de toda a ordem”!
Desabafei!

4.10.05

Cair de Tarde

E na imensidão da quieta paisagem ,
a pequenez daquilo que nós somos!
Resvalando p'ra nostalgia
de quando eramos apenas Natureza!

avulso...

De manhã...


.....E ao pôr do Sol....,

O Almoço










Apaziguadas as saudades, as recordações, as trocas de afectos, começamos a subir para o repasto principal.
Aí, ao som de uma balada foi-nos anunciado que o Padre Barnabé iria dar graças pela vida e pelos bens terrenos. E assim foi, entre amens e aleluias, o Pai Nosso, que Padre Barnabé não conseguiu terminar, depois de um engano, culpa da emoção ou dos aperitivos.
E mea culpa, mea máxima culpa, eu ia pensando na fome dos que em África, terra do Padre Barnabé…adiante...
O lugar tinha sido previamente escolhido e escrito num cartãozinho colocado na prenda que cada convidado recebeu.
No final do almoço começou o espectáculo da banda “Rock Alentejano"!

E não se riam, mas eu até dancei o vira e o malhão, e cantei, que a banda era mesmo boa, fosse em português, alentejano, madeirense, inglês ou francês...

3.10.05

O Aperitivo











Ainda está pouca gente, as mesas estão postas numa espécie de coreto, mas aqui a música é outra.
Contei onze mesas com 10 lugares cada, 110 talheres ao todo; instrumentos de música à esquerda, a coisa prometia…Ao fundo a paisagem, magnifica!
Na parte de baixo e cá fora, Bar Aberto, dentro numa enorme mesa, os aperitivos. Desde os patés, o presunto, o salmão aos vários fumados e queijos, saladas, etc.
Os convidados foram chegando, de todas as idades, gente bonita de permeio, bem vestida, alguns cães e poucas crianças. Amigos, alguns que não via há mais de 20 anos, foram reavivando episódios daquela época em que entre o pós 25 de Abril e o começo da divulgação da Sida foi a de maior liberdade e juventude. Aquela viagem, aquela noitada, aquela paixão…
Soube depois que a família de Efi, irmã, sobrinho e pais, tinham vindo de propósito dos EUA para organizar esta festa surpresa e comemorar o 60º aniversário dele. Regressaram hoje, manhã cedo.
Também Efi viveu muitos anos nos EUA onde foi mordomo, entre outros, de Jaqueline K/O e John-John.
E eis que chega enfim "O festejado", meio surpreso, meio adivinhando, sorrindo sempre, calmamente, distribuindo abraços e beijos.

O Convite


Tinha recebido o convite há 15 dias.
Um telefonema da irmã do aniversariante, com quem nunca tinha contactado nem conhecia pessoalmente, a convidar-me para a Festa-Surpresa de aniversário do irmão; teria muito gosto, disse.
Alguns telefonemas feitos e licença conseguida, confirmei…sim senhora, iria ser um prazer estar presente.
Tudo combinado, quem vai com quem; tu guias p’ra lá, eu trago o carro p’ra cá que eu não posso beber muito, estou a tomar antibióticos, F. fica a dormir em casa do E. por isso podemos ir no teu carro, etc.
Que prenda comprar…eu vou dar um CD, eu um livro, eu uma pulseira que vi na ourivesaria em couro e prata.
É um almoço ao ar livre, vou levar roupa ligeira, que está calor ainda, um agasalho p’ra noite, máq. Fotográfica, não esquecer!
O itinerário é complicado, mas vem tudo explicado no convite, o que não impediu que parássemos duas ou três vezes para perguntar aos da terra o caminho para a Quinta do Avô…encontramos vários carros parando, fazendo o mesmo…caminho de terra batida, é aqui, chegamos, foi fácil.

HELP!

ESTE BLOG CUSTA A ABRIR P'RA CARAMBA...LOL
A QUEM ME PUDER AJUDAR FICAREI PARA SEMPRE GRATA.
HÁ MESMO QUEM DIGA QUE ELE NÃO TEM NADA ESCRITO, ORA SE EU NÃO TENHO FEITO OUTRA COISA...
BEM, FICO À ESPERA.
DESDE JÁ OBRIGADA,
TH

2.10.05

Elogio


Era a amiga que tinha passado a linha, aquela que divide os amigos comuns dos amigos íntimos.
Era também a pioneira, com afectos pioneiros, relações d’avant-garde.
Dela recebi a ternura de uma irmã, a cumplicidade que deveria existir entre as mulheres, a frontalidade de uma mente lúcida e culta. Era, a despeito de tudo isto, uma mulher empenhada, que às vezes até com algum sacrifício ultrapassava as suas necessidades para suprir as da família, nas coisas mais comezinhas como era, por exemplo, o tempo de ir a um teatro ou ler um livro.
Teve ainda tempo de brincar com o neto, o primeiro que o segundo já não lhe ouviu o choro ou o riso.
Na sua dor ainda se preocupou com o que poderia acontecer aos outros quando se fosse embora.
Quero recorda-la como quando o sono começava a cerrar-nos os olhos, ela se ausentava para fazer um chá para que dormíssemos retemperadamente, ou vestida para um jantar nas Termas, onde fomos para descansar, escandalizando todo o mundo com as transparências da saia rodada.
Foi desistindo devagarinho de tudo o que poderia ter feito dela a primeira mulher verdadeiramente independente que conheci. Por fim desistiu da própria vida.
Tenho saudades tuas, Amiga…minha amiga Nair.