22.10.05

A Violação


Ele era um rapagão, olhos claros, entre o cinza e o azul, olhar meigo, bem constituído, músculos trabalhados.
E depois vestia bem, cheirava bem, um andar descontraído, de modelo em passerelle.
Não se lhe conheciam namoradas (os) ou ligações que levassem a um compromisso.
Por isso foi com espanto que souberam que tinha sido acusado de violação por uma jovem lá bem do norte, onde só lá vai quem está doente ou sofre neurastenia.
O que não se sabia era que aquela jovem era nem mais nem menos a sua própria irmã.
Quem lhe pusera o processo foi o namorado desta, rapaz buçal e analfabeto a atirar para brutamontes e que prometera meter-lhe a faca na barriga caso justiça não fosse feita.
Ora acontece que Luciano tinha meios de provar que não fora ele o autor de acto tão miserável e covarde.
Inês, por seu lado, não tinha maneira de confirmar ou desmentir,

sofria de um ligeiro atrasado mental desde a nascença e mesmo o que dizia não era de fiar.
Luciano foi adiando o julgamento conforme pôde, de maneira a organizar a sua defesa, para o que contratara um excelente advogado.
Lá na aldeia Inês continuava a sua vida feliz de quem não sabe o que é sofrimento, excepto o físico, e esse era robusto e saudável.
Já o namorado, roído de ciúme, assim que a noite caía era vê-lo a deambular pelos montes, falando sozinho e derrubando tudo à sua frente.
Tudo começara com uma desconfiança, a barriga de Inês a crescer, a menstruação que nunca mais chegava, constatava a mãe, que fora a primeira a levantar suspeitas.
Depois do julgamento em que Luciano foi considerado inocente, a chegada da primavera tinha trazido também
a razão do estado de Inês, nada menos que uma gravidez histérica, ela continuava mocinha como sempre, inocente e virgem.
O Chico silenciou e descaiu como um fardo que se esvazia, andava macambúzio, sem compreender lá muito bem essas coisas nervosas e porque aconteciam.
De exaltado passou a um farrapo que se arrasta penosamente pelos cantos e recantos, “aiando” de vez em quando.
Confessando-se amiúde, fez do sr. Padre o seu confidente, só ele sabendo portanto da sua grande paixão por Luciano.


1 comentário:

Paula Raposo disse...

Dramático! Passei por aqui e vim ler-te. Beijos, bom domingo