11.2.05

Regresso para o futuro

Por entre frondosas árvores a estrada serpenteava o vale, ladeada por campos e pomares.
Aqui e além pequenas herdades onde se viam alguns animais na faina ou pastorando.
Era-lhe grato ver que nada estava abandonado para aquelas bandas, o que lhe dava uma satisfação e enriquecia a sua jornada através de tão próspera paisagem.
Quando perto da estrada, trabalhadores acenavam, aproveitando o momento para limpar o suor nas mangas da camisa e endireitar as costas.
À medida que subia a serra os campos davam lugar a solo mais bravio, duma beleza diferente.
Conduzia devagar, languidamente, embalado pela música suave, pelo morno entardecer mas sobretudo pela magia que pairava no ar, sem saber de onde vinha.
Após muitos anos de ausência, era a quinta vez que aqui vinha para reencontrar o berço, os cheiros, a luz, os caminhos…
Aos poucos tinha vindo a descobrir coisas espantosas sobre a família e sobre si mesmo, sobre si em pequeno, adolescente, quase adulto, sobre a mãe e sua desvairada paixão por um cavaleiro da vizinhança, que os levou até ao Brasil onde morreram num desastre de aviação.
Passados anos o pai voltou a casar com uma rapariga da terra, que lhe deu uma filha, a Ritinha, linda de morrer, agora com a mãe em França para onde foi depois da morte do pai.
A senhora Rosa ia sendo a contadora destas e outras histórias, à mesa da cozinha enquanto ambos bebiam um café depois do almoço. Ela já conhecia a família de longa data e logo que resolveu por ali pousar veio-se oferecer "para o que o menino precisar", disse.
O menino lembra-se da Beatriz?
-que não, não se lembrava.
Pois não é que tinha chegado há pouco à "Herdade das Rolas", sabe aquela que fica lá mais acima, perto do cabeço, e não é que apesar de viúva estava uma senhora bem apessoada, e sempre com aquele ar que fez muita cabeça andar à roda.
-Mas o menino não se lembra? Ora, não se lembra o menino doutra coisa, pois se até andou embeiçado por ela até ir embora daqui…
-Beatriz…Be…ah! a Bééé!, sim agora me lembro muito bem.
Estava sorrindo por dentro, sorriso que tentou disfarçar quando perguntou: conte lá, que foi feito dela?
Senhora Rosa foi buscar mais café, é que o assunto merecia.
E lá foi contando que Beatriz tinha ido para Braga estudar e um dia quando voltou nas férias trazia noivo rico. Foram viver fora que ele não era português. Enviuvou, voltou para a terra e comprou a Herdade das Rolas, que estava à venda depois da morte do dono, o fidalgo velho, Sr. Antero. Agora vinha cá muitas vezes, mas vivia lá para a costa, diziam.
A Bé tinha sido a mulher que o iria marcar para toda a vida! Ligeiramente mais velha, tinha sido com ela que perdera a virgindade…
Foi ainda a sorrir por dentro que saiu para o pátio e para a estrada, tomando o caminho do cabeço, da Herdade das Rolas.
Beatriz foi abrir o portão mal se apercebeu que alguém subia o caminho e caiu nos braços dele, resmungando: estava a ver que nunca mais aparecias!
-Sabes lá, tive que esperar que a srª Rosa me desse a “novidade” e fingir que já não me lembrava de ti, riu…
Todo o cuidado é pouco, tu sabes, a polícia de Orleans ainda não está convencida que o teu marido se tenha suicidado!

1 comentário:

Antonio San disse...

Theo, só agora tomei conhecimento, por intreposto blog, que fazias anos.
Pois que seja uma data com muito riso, alegria, felicidade, saúde a rodos e algum vil metal para os gastos. Que se repita por muitos e bons anos e que mantenhas sempre essa juventude inata que faz de ti um ser tão especial.
Beijinho grande de admiração.