26.9.05

Do Menino de Olhos Doces


Tinha os olhos meigos, sofredores,
de quem, em pequeno, tinha passado fome e chorado muito.
Olhava-nos como aquele que pede pão e não tem a certeza se vai poder come-lo, antes que um bofetão lhe rebente a cara e o ponha a sangrar pelo nariz.
O sorriso era lindo, igual ao daqueles que mesmo no meio de toda a desgraça ainda conseguem apreciar um passarinho no seu chilreio, uma borboleta esvoaçando à volta de um tufo de flores.
Nunca se habituou a ter mais do que precisava e andava teimosamente de mãos nos bolsos com medo de as estender, a pedir esmola.
Era dolorosamente humilde, sofredoramente amigável e vivia só!
Fora casado na condição de subalterno de uma mulher que por baixo de alguns pelos de bigode se apertavam uns lábios finos que o azedume moldara.
A sua honestidade, dedicação e sacrifício nunca foram reconhecidos na firma onde trabalhava desde miúdo, emprego arranjado pelos pais para ajudar às despesas da casa, logo que a custo fez a 4ª classe.
O menino triste cresceu nos braços dum tempo marcado pela urgência de sair duma infância pobre e sem esperança.
A timidez era a roupagem que escondia o seu medo da vergonha; ninguém lhe conhecia a alma e no amar era poupado, com medo de perder o pouco que lhe restava da sua parca dignidade.
Com o avançar da idade chegou o sossego, os dias tranquilos, os passeios pelos jardins.
Dava de comer aos pombos, pequenas migalhas que levava de casa e conversava com aqueles que dele se aproximavam, talvez numa tentativa de quebrar a sua própria solidão.
Gozava assim do tempo da sua escassa reforma.
Os olhos, esses, continuavam tristes, meigos e denotando um certo sofrimento, sofrimento ainda pela vida não vivida, pelo amargo do que tinha sido a sua.
…………………………………………………..

Chegada aqui gostaria de falar deste menino-homem com uma recompensa para lhe dar nas minhas mãos, que escrevem a sua estória, mas não posso.
Amigo meu ainda sugeriu que talvez ele se revoltasse e se transformasse num bombista, ou algo parecido.
Não é assim que eu o vejo, não é assim que eu o sinto.
Ele será para sempre o menino de olhar meigo e triste, que envelheceu no corpo dum homem bom e sem maldade.
Porque estou triste, muito triste hoje, só posso terminar esta história duma única maneira, do modo como a sinto…
Fecharam-se os olhos doces e tristes deste homem, suavemente morreu esta madrugada, numa cama de hospital, envergonhado.
Ninguém o chorará, apenas EU…

7 comentários:

Carlos Gil disse...

nem sei o que dizer... por isso deixo-te o meu carinho, e sabes que é muito.

Caracolinha disse...

Olá Theo ... aqui estou eu de regresso às lides bloguistas para te deixar um beijinho grande cheinho de carinho, como tu mereces !!!! ~:o)

Carlos Gil disse...

Gostava de ler mais um conto teu, mergulhar o post dos olhos tristes e ver o brilho verde dos teus, o enigmático que eles revelam em tramas que surpreendem sempre, empolgando os nossos para também brilharem de surpresa, prazer.
Que há meninos tristes e há meninos alegres, tu tens leitores que não desistem de te dizer que uma das melhores formas de esquecer é sonhar, escrevendo para outros lerem e também sonharem.

Mocho Falante disse...

Fiquei com um nó na garganta no final deste post...e subitamente a trsiteza invadiu-me... mas aqui estou eu a dar muitos beijinhos de solidariedade

Luh disse...

Com que força escreves minha Amiga.
Beijinhos

Tareca disse...

Entre uma lágrima que teimou em cair
Mesmo que molhado o meu sorrir, quero com afago um beijo te dar

Theozinha gosto de ti, jinhos

Carlos Gil disse...

:-(

porra, onde nos perdemos???