Ainda por entre uma certa névoa, começou a tomar consciência do que se passava à sua volta, embora muito difusamente distinguia bombeiros, paramédicos e civis, uns feridos outros ajudando a retirar de entre os escombros os que não tinham capacidade para se mover.
Quis levantar-se mas não conseguiu e a dor que o fez gritar também o fez desmaiar de novo.
Quando veio a si estava já no corredor do hospital e deu-se conta que a azafama era grande e ouviam-se gritos e lamentações.
Tinham-lhe por certo dado um analgésico forte pois não sentia dor nenhuma e braços e pernas estavam como que dormentes.
Foi quando ouviu: há mais de 20 mortos...e se lembrou que tinha ido àquele Hotel para se encontrar com uma pessoa da qual dependia a sua vida futura.
Nunca soube o que lhe aconteceu ao certo porque as referencias que tinha eram escassas e quase secretas.
Quando ao fim de longos meses saiu do hospital ainda tinha dores no braço que já não tinha e o futuro era algo de muito incerto e angustiante.
Não voltou para a firma onde fora um dos melhores designers das campanhas mais difíceis e acabou mesmo por sair da cidade e ir viver para uma vilazinha no sopé da Serra no centro do país.
Incógnito, recatado e sempre cabisbaixo, a caminho do único emprego que lhe fora possível arranjar, de guarda e porteiro de uma fábrica, ia cogitando e falando baixinho entre dentes...
Afinal podia dar-se por muito feliz, estava vivo porquanto o portador da encomenda que ia receber naquela noite, naquele Hotel, fora vítima da mesma pois o engenho deflagrara 1 hora antes de ser colocada na Embaixada, seu destino final.
18.12.04
17.12.04
Num segundo...
O dia amanhecera há pouco e parecia que o Sol iria torná-lo um dia radioso, apesar da neve que ainda cobria as veredas e os cantos mais sombrios.
Aqui e ali uma porta se abria dando passagem a alguém que tinha madrugado o corpo, trazendo saudades da cama, piscando os olhos para a claridade da manhã.
Esfregavam-se as mãos para afastar as frieiras e o cieiro viera para ficar até à primavera, mas o ar era límpido, ausente da poluição das grandes cidades.
Ele viera de longe à procura dum olvido, duma cura, apenas com a energia suficiente para respirar cada dia que assim nascia e que era vivido dolorosamente.
Atrás ficara uma vida de alegria e bem-estar, de pessoa sem preocupações de espécie alguma até àquele desafortunado fim-de-semana, no princípio tão promissor.
Estava já tão longe no tempo, mas tão perto ainda na sua angústia. E acordara cedo e bem disposto nesse sábado, talvez por que o dia estava programado de modo a não haver falhas nos projectos. Iria à ginástica e faria uma sessão de massagem, depois de uma semana trabalhosa era o que lhe apetecia e lhe faria bem. Almoçaria sozinho, no restaurante do costume, pois um pouco de rotina lhe proporcionaria calma e tempo para ler o semanário que o esperava no banco ao lado. A seguir, depois de uma volta pelas lojas de que era cliente assíduo, a prova do último fato no alfaiate.
Mandar lavar o carro e vestir-se para o jantar combinado apenas o ocuparia o tempo necessário antes do seu encontro no bar dum Hotel para um aperitivo. Lá chegado, verificou que afinal era o primeiro, o que lhe dava ainda tempo para um telefonema.
Foi quando tudo desmoronou à sua volta com grande estrondo, o chão fugiu qual passadeira rolante e já no chão tudo ficou negro…uma bomba tinha rebentado no átrio do Hotel.
(continua)
Aqui e ali uma porta se abria dando passagem a alguém que tinha madrugado o corpo, trazendo saudades da cama, piscando os olhos para a claridade da manhã.
Esfregavam-se as mãos para afastar as frieiras e o cieiro viera para ficar até à primavera, mas o ar era límpido, ausente da poluição das grandes cidades.
Ele viera de longe à procura dum olvido, duma cura, apenas com a energia suficiente para respirar cada dia que assim nascia e que era vivido dolorosamente.
Atrás ficara uma vida de alegria e bem-estar, de pessoa sem preocupações de espécie alguma até àquele desafortunado fim-de-semana, no princípio tão promissor.
Estava já tão longe no tempo, mas tão perto ainda na sua angústia. E acordara cedo e bem disposto nesse sábado, talvez por que o dia estava programado de modo a não haver falhas nos projectos. Iria à ginástica e faria uma sessão de massagem, depois de uma semana trabalhosa era o que lhe apetecia e lhe faria bem. Almoçaria sozinho, no restaurante do costume, pois um pouco de rotina lhe proporcionaria calma e tempo para ler o semanário que o esperava no banco ao lado. A seguir, depois de uma volta pelas lojas de que era cliente assíduo, a prova do último fato no alfaiate.
Mandar lavar o carro e vestir-se para o jantar combinado apenas o ocuparia o tempo necessário antes do seu encontro no bar dum Hotel para um aperitivo. Lá chegado, verificou que afinal era o primeiro, o que lhe dava ainda tempo para um telefonema.
Foi quando tudo desmoronou à sua volta com grande estrondo, o chão fugiu qual passadeira rolante e já no chão tudo ficou negro…uma bomba tinha rebentado no átrio do Hotel.
(continua)
16.12.04
O Metro
Aconteceu que tendo ido à procura de umas fotos deparei com o "metro" em madeira com que na nossa loja se mediam panos e fitas, e para completar a" fotografia" fui procurar uma peça de pano daquele tempo e completo o conjunto, fotografia feita, aqui inserida como deve ser, apenas me resta falar um pouco sobre o mesmo.
Era obrigatório naquela altura o "metro" ter que ser aferido todos os anos por uma entidade, não sei qual e onde era gravada uma letra por cada ano. Ora eu conto nada menos que 38 letras, 38 anos, a que se juntarmos os anos de inacção, a partir mais ou menos de 1948, ano em que minha mãe terá fechado a loja, podemos deduzir que este utensílio terá à volta de 95 anos.
Ele também fez a guerra, trabalhando. Muitos metros de riscado, chita, pano-cru, tafetás, flanelas, cambraias e passa manarias terão sido medidos por este pedaço de madeira que é quase peça de museu.
A loja, por que à porta estávamos sentados muitas vezes, foi o meio que nos permitiu ser não miúdos de rua mas termos uma visão dela diferente dos outros miúdos. Conhecíamos os vizinhos, até porque íamos a casa deles receber as quotas de cartões que a minha mãe emitia e de que fazia sorteio todas as semanas e foi por esse motivo que uma vez vimos na loja dos curtumes nada mais nada menos que o nosso gato, o "chaninho", desaparecido há já um tempo para nosso desgosto. Ora o que havia a fazer foi feito, e o "chaninho" foi "roubado" e trazido ao colo de um de nós, escondido debaixo da camisola, quero crer.
Mais tarde alguém o envenenou, que maldade!, mas o bichinho esperou pelo meu pai, que tinha feito piquete nos bombeiros, e só regressou de manhã. Morreu em cima do balcão da loja pouco depois do meu pai chegar.
Visto à distancia de 60 anos o nosso mundo era pequeno, era aquele pedaço de rua que ia da escola, ao fundo, até à Igreja do Bonfim lá no alto, mas que não nos era permitido percorrer sem acompanhamento devido de um adulto, grande era a distancia para uma criança que só gostaria que fosse maior para poder andar de eléctrico!
Era obrigatório naquela altura o "metro" ter que ser aferido todos os anos por uma entidade, não sei qual e onde era gravada uma letra por cada ano. Ora eu conto nada menos que 38 letras, 38 anos, a que se juntarmos os anos de inacção, a partir mais ou menos de 1948, ano em que minha mãe terá fechado a loja, podemos deduzir que este utensílio terá à volta de 95 anos.
Ele também fez a guerra, trabalhando. Muitos metros de riscado, chita, pano-cru, tafetás, flanelas, cambraias e passa manarias terão sido medidos por este pedaço de madeira que é quase peça de museu.
A loja, por que à porta estávamos sentados muitas vezes, foi o meio que nos permitiu ser não miúdos de rua mas termos uma visão dela diferente dos outros miúdos. Conhecíamos os vizinhos, até porque íamos a casa deles receber as quotas de cartões que a minha mãe emitia e de que fazia sorteio todas as semanas e foi por esse motivo que uma vez vimos na loja dos curtumes nada mais nada menos que o nosso gato, o "chaninho", desaparecido há já um tempo para nosso desgosto. Ora o que havia a fazer foi feito, e o "chaninho" foi "roubado" e trazido ao colo de um de nós, escondido debaixo da camisola, quero crer.
Mais tarde alguém o envenenou, que maldade!, mas o bichinho esperou pelo meu pai, que tinha feito piquete nos bombeiros, e só regressou de manhã. Morreu em cima do balcão da loja pouco depois do meu pai chegar.
Visto à distancia de 60 anos o nosso mundo era pequeno, era aquele pedaço de rua que ia da escola, ao fundo, até à Igreja do Bonfim lá no alto, mas que não nos era permitido percorrer sem acompanhamento devido de um adulto, grande era a distancia para uma criança que só gostaria que fosse maior para poder andar de eléctrico!
15.12.04
Aprendendo...sempre
Alguem, por uma questão de rigor, rectificou uma data que aqui foi mencionada e que por falta de pesquisa estava errada, pelo que só tenho a agradecer ao JT a preciosa achega
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