Quase todas as minhas recordações do tempo da guerra se situam na Rua do Bonfim,
Mas quando as sirenes anunciaram o fim da guerra já nós morávamos na Rua S.to Ildefonso, e a elas se juntaram as buzinas dos automóveis. Festa assim só quando o meu filho nasceu…no dia 31 de Dezembro, 17 anos mais tarde.
E que dizer das distancias? Viagens que agora se fazem todos os dias para ir para o trabalho, naquele tempo eram motivo para uma excursão. Para ir ao Bom Jesus, a Braga, ao Gerês, à Casa do Gaiato, a S. Miguel de Seide, até à Serra do Pilar…planeava-se uma excursão de um Domingo qualquer durante o verão.
No Inverno ia-se buscar “borralho” à padaria para acender a braseira onde não raras vezes queimei sola de sapato e era na padaria que se assava o carneiro em tempos de S. João e as castanhas no Inverno. A minha rua, do Bonfim, tinha tudo até uma carvoaria, o sapateiro onde também se mandava cortar as pontas dos sapatos para durar mais um ano, o barbeiro cuja irmã se enamorou do meu pai…homem jeitoso para a época.
Ao fundo da rua, a minha escola, que muitas vezes eu teria gostado que fosse longe para poder andar de eléctrico, como algumas das minhas coleguinhas. Ir ao Campo 24 de Agosto ou ao jardim de S. Lazaro era um passeio para recordar, era lá que íamos buscar as folhas de amoreira para dar aos bichos-da-seda que íamos acompanhando na sua metamorfose até ser casulo. Mas era o cheiro das tílias o que predominava sobre os outros.
Da guerra de lá longe as crianças pouco sabiam, e as poucas privações de que me lembro estavam relacionadas com o racionamento dos bens de consumo, com o cuidado em não deixar passar luz para fora à noite e claro com as tiras de papel, que no nosso caso eram de pano, nos vidros das janelas por causa dos estilhaços, em caso de bombardeamento.
Era o tempo dos soquetes, dos babeiros, dos cabelos em tranças ou cachos feitos com chá açucarado para não se desfazerem.
Era o tempo do”todo o tempo…”!
14.12.04
A Grande Guerra (1)
Quem, como eu, nasceu em 1933 veio a saber mais tarde que esse foi o ano em que mais ou menos Salazar e Hitler subiram ao poder. Tinha portanto 6 anos quando a Alemanha invadiu a Polónia, fingindo ter sido invadida por ela, nós sabemos, em Setembro de 1939.
Mas só em 1940, tinha feito 7 anos em Fevereiro é que pude entrar para a 1ª classe.
Meu pai, além de contabilista era bombeiro e ausente, minha mãe tinha uma loja, como eu disse, de panos e costura. Eram as empregadas da loja que assim que constava que em algum sítio havia bicha para isto ou aquilo eram “tarefadas” para ir a correr buscar um quilo de açúcar, arroz, 1 litro de azeite…produtos essenciais e que por este motivo nunca faltaram em minha casa.
Tudo era mais ou menos racionado e pessoas havia que, sem as possibilidades que nós tínhamos, sentiam mais os efeitos duma guerra que, embora longe, nos atingia a todos.
À noite tínhamos que correr cortinados e fechar portadas pois não raro éramos alertados por sirenes para um simulacro de ataque aéreo. Sons que ainda hoje me fazem sobressaltar um pouco, como por exemplo o das ambulâncias.
O carvão, quando não havia de choça ou de pedra, era feito em casa; com pó de carvão eram feitas umas bolas que depois eram secas ao sol no mesmo pátio onde no verão eram refeitos os colchões de palha e a sumaúma dos travesseiros era aberta e arejada.
Falava-se de pessoas que ficaram ricas com o negócio do “volfrâmio” e de contrabando vário, e foi de contrabando que minha mãe arranjou as primeiras meias de seda com costura que eu me lembro de ter visto.
Ainda conservo em meu poder o rádio que nos anos 40 meu pai trouxe para casa e onde ouvíamos as notícias; um destes dias tiro-lhe uma foto e coloco aqui, juntamente com mais algumas recordações.
Estranhamente não tenho saudades desse tempo, só gostaria de o poder visitar de vez enquanto…ou talvez não!
Deixemos que a magia da nossa meninice se não quebre!
Mas só em 1940, tinha feito 7 anos em Fevereiro é que pude entrar para a 1ª classe.
Meu pai, além de contabilista era bombeiro e ausente, minha mãe tinha uma loja, como eu disse, de panos e costura. Eram as empregadas da loja que assim que constava que em algum sítio havia bicha para isto ou aquilo eram “tarefadas” para ir a correr buscar um quilo de açúcar, arroz, 1 litro de azeite…produtos essenciais e que por este motivo nunca faltaram em minha casa.
Tudo era mais ou menos racionado e pessoas havia que, sem as possibilidades que nós tínhamos, sentiam mais os efeitos duma guerra que, embora longe, nos atingia a todos.
À noite tínhamos que correr cortinados e fechar portadas pois não raro éramos alertados por sirenes para um simulacro de ataque aéreo. Sons que ainda hoje me fazem sobressaltar um pouco, como por exemplo o das ambulâncias.
O carvão, quando não havia de choça ou de pedra, era feito em casa; com pó de carvão eram feitas umas bolas que depois eram secas ao sol no mesmo pátio onde no verão eram refeitos os colchões de palha e a sumaúma dos travesseiros era aberta e arejada.
Falava-se de pessoas que ficaram ricas com o negócio do “volfrâmio” e de contrabando vário, e foi de contrabando que minha mãe arranjou as primeiras meias de seda com costura que eu me lembro de ter visto.
Ainda conservo em meu poder o rádio que nos anos 40 meu pai trouxe para casa e onde ouvíamos as notícias; um destes dias tiro-lhe uma foto e coloco aqui, juntamente com mais algumas recordações.
Estranhamente não tenho saudades desse tempo, só gostaria de o poder visitar de vez enquanto…ou talvez não!
Deixemos que a magia da nossa meninice se não quebre!
11.12.04
1943
Incongruências
Este Carnaval foi chuvoso, foi um dos Invernos mais rigorosos de que me lembro, houve grande vendaval, este e o de 44, que o digam os homens do dia D.
Minha mãe fez questão, ponto de honra, de nos fantasiar e levar ao Club Fenianos Portuense, que por acaso comemorou faz pouco tempo o seu centenário.
Tudo foi confeccionado em casa, já que possuíamos uma loja de panos e costura.
O arco do saiote atrapalhava um bocado ao andar e as saias compridas ficaram molhadas e algo enlameadas, mas eu tinha 10 anos e queria era mostrar o fato aos vizinhos e amigos, com pena de não o poder fazer na escola pois estávamos de férias de Carnaval.
O fato do meu irmão era do mais rústico que havia, já que a camisa era de riscado as calças de caqui, calçava socos e como acessórios o clássico regador e respectivo ancinho, pelo que ganhou o prémio no desfile dos Fenianos, à frente dos que iam vestidos de cetim e lantejoulas.
Nessa época as crianças eram felizes com bem pouco!
O Natal também era bem diferente do de agora…
A árvore era armada na véspera, com bolas de vidro, anjinhos, sinos e velas de cera, colocadas em pequenos encaixes que se prendiam à “caruma” do pinheiro, enquanto na cozinha se iam fazendo as rabanadas, as filhoses, o creme com açúcar queimado com o ferro de mão e a imprescindível aletria. E até aos reis a conservávamos bem arranjada e bem iluminada, mesmo com risco de tudo se incendiar; às vezes acontecia…
Em pouco mais de meio século tudo é diferente…
Esta semana andei pelas feiras, que eu gosto, e onde vou sempre que posso à procura de uns mimos, quem sabe de um tempo passado!
Mas o que encontro nestes natais são fantasias de Carnaval!...
8.12.04
Era uma vez
Era uma vez…
Uma loja de brinquedos que nunca fechava e onde os meninos a toda a hora iam buscar entretenimento e se encontravam para contar histórias.
Alguns raramente lá iam, mas ao passar sempre olhavam a montra e apreciavam os produtos ali expostos.
Outros havia que eram assíduos e faziam da loja ponto de encontro de todos os dias.
Mas veio um tempo em que os meninos começaram a querer outros artigos, novidades e o desencontro foi inevitável entre eles, dado os seus interesses divergirem de forma tão notória.
Foi então que veio o sábio e disse:
Meus queridos não queirais daqui mais do que é possível caber neste espaço.
Tudo aqui tem de ser acessível a todos para que todos possam conviver e brincar juntos.
Cada coisa tem um lugar certo e podeis ver que apesar de simples tudo aqui é feito com qualidade e amor.
Compreendo o vosso interesse por artigos mais avançados em técnica, mas isso vocês têm que procurar noutro lugar, eu mesmo vos mostro o caminho.
Os meninos olharam uns para os outros e seus olhares confirmaram o que acabavam de ouvir.
E se alguns, seguindo o conselho sábio, foram em outras paragens procurar, outros ficaram porque ali se sentiam bem e até já bons amigos tinham conquistado.
No dia em que a loja fechar as portas e se afastarem os que por ali andam todos os dias, a recordação vai ficar na memória de todos eles, tenho disso a certeza.
De todos os lugares podemos tirar ensinamentos, de todos os lugares devemos adquirir bens para a vida!
Vivamos de modo a que as recordações sejam jóias que guardamos ciosamente em nossos corações
Uma loja de brinquedos que nunca fechava e onde os meninos a toda a hora iam buscar entretenimento e se encontravam para contar histórias.
Alguns raramente lá iam, mas ao passar sempre olhavam a montra e apreciavam os produtos ali expostos.
Outros havia que eram assíduos e faziam da loja ponto de encontro de todos os dias.
Mas veio um tempo em que os meninos começaram a querer outros artigos, novidades e o desencontro foi inevitável entre eles, dado os seus interesses divergirem de forma tão notória.
Foi então que veio o sábio e disse:
Meus queridos não queirais daqui mais do que é possível caber neste espaço.
Tudo aqui tem de ser acessível a todos para que todos possam conviver e brincar juntos.
Cada coisa tem um lugar certo e podeis ver que apesar de simples tudo aqui é feito com qualidade e amor.
Compreendo o vosso interesse por artigos mais avançados em técnica, mas isso vocês têm que procurar noutro lugar, eu mesmo vos mostro o caminho.
Os meninos olharam uns para os outros e seus olhares confirmaram o que acabavam de ouvir.
E se alguns, seguindo o conselho sábio, foram em outras paragens procurar, outros ficaram porque ali se sentiam bem e até já bons amigos tinham conquistado.
No dia em que a loja fechar as portas e se afastarem os que por ali andam todos os dias, a recordação vai ficar na memória de todos eles, tenho disso a certeza.
De todos os lugares podemos tirar ensinamentos, de todos os lugares devemos adquirir bens para a vida!
Vivamos de modo a que as recordações sejam jóias que guardamos ciosamente em nossos corações
7.12.04
À mesa com os amigos
Por que folguei ao sábado, sentei-me à mesa com os amigos.
De manhã tinha comprado o livro “A festa de Babette” e embora as duas coisas nada tivessem a ver uma com a outra, foi uma refeição que fez com que a associação de ideias surgisse.
Enquanto naquela a ementa fosse principalmente a amizade, já nesta as iguarias eram dum requinte inusitado.
Vi o filme e pelo menos uma vez na vida gostaria de poder usufruir do prazer de dar daquela maneira e de orgulhosamente de me despojar do que por ventura tivesse de mais valioso, a minha dádiva de espanto!
Dos jantares de amigos nunca me lembro do que como, mas do que o meu ser se alimenta, pois essa é na verdade a fonte da vida.
O aperitivo foi “choro de bisneto”, salgadinho qb.
Seguiu-se a entrada de “cogumelos com farinheira” à amor de neta.
Para prato principal um “esparguete acrescentado cada vez que chegava mais um amigo”.
O vinho foi “chambreado” no calor da conversa.
Música suave durante o repasto, mas a acompanhar o café depois de uma sobremesa de “pão-de-ló sem buraco e mole no meio”, a guitarra dedilhada pelo dono da casa, à luz de velas e solos de riso que só a amizade sabe produzir.
No final da noite, à despedida, os abraços possíveis pois as bagagens de amor que levávamos connosco nos impediam de dizer adeus, mas até sempre!
E tudo isto porque folguei ao sábado e porque tenho como amigos a minha família para além daqueles que sendo meus amigos já fazem parte dela.
De manhã tinha comprado o livro “A festa de Babette” e embora as duas coisas nada tivessem a ver uma com a outra, foi uma refeição que fez com que a associação de ideias surgisse.
Enquanto naquela a ementa fosse principalmente a amizade, já nesta as iguarias eram dum requinte inusitado.
Vi o filme e pelo menos uma vez na vida gostaria de poder usufruir do prazer de dar daquela maneira e de orgulhosamente de me despojar do que por ventura tivesse de mais valioso, a minha dádiva de espanto!
Dos jantares de amigos nunca me lembro do que como, mas do que o meu ser se alimenta, pois essa é na verdade a fonte da vida.
O aperitivo foi “choro de bisneto”, salgadinho qb.
Seguiu-se a entrada de “cogumelos com farinheira” à amor de neta.
Para prato principal um “esparguete acrescentado cada vez que chegava mais um amigo”.
O vinho foi “chambreado” no calor da conversa.
Música suave durante o repasto, mas a acompanhar o café depois de uma sobremesa de “pão-de-ló sem buraco e mole no meio”, a guitarra dedilhada pelo dono da casa, à luz de velas e solos de riso que só a amizade sabe produzir.
No final da noite, à despedida, os abraços possíveis pois as bagagens de amor que levávamos connosco nos impediam de dizer adeus, mas até sempre!
E tudo isto porque folguei ao sábado e porque tenho como amigos a minha família para além daqueles que sendo meus amigos já fazem parte dela.
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