27.1.10

Subtis Lembranças



(Foto minha com o avô Eduardo)

Foram as palavras certas, como uma chave que abrisse o passado cheio de ferrugem.
Rangeram as palavras aprisionadas num resignado esquecimento,voltaram os tempos das lembranças, os 30 e 40, os da minha meninice.

Teria quatro, cinco anos? o avô materno, homem sereno de voz tranquila, tinha morrido.
Sempre me lembrava dele sentado numa cadeira ao pé da braseira na loja de minha mãe, ou à fornalha da oficina onde batia chapa.
Os pais decidiram levar-me para casa da minha avó paterna nos primeiros dias de luto, fazia-se uma mala com a roupinha necessária, em cima duma cadeira junto à porta do quintal.
Poucos dias antes minha mãe comprara-me uns "soquetes" de uma das cores do arco-íris, vermelhas ou amarelas, disso já não me lembro, fui buscá-las e coloquei-as na mala, mas a mãe disse que aquelas eram muito garridas e nós estávamos de luto (as crianças naquela época vestiam de negro também) e voltou a metê-las na gaveta.
É a lembrança mais antiga, SEI exactamente onde voltei, sorrateiramente, a esconder os soquetes, escondidos debaixo da roupa, na mala que estava em cima duma cadeira, junto à porta do quintal.
Não esqueci também o sorriso meigo de minha mãe, que tudo viu, e deixou que uma das cores do arco-iris fosse mais importante do que o negro do luto, afinal eu era uma menininha e tinha muitos anos pela frente para ter saudades do olhar meigo do meu avô, que espreita agora através do sorriso do meu filho.

Modestas palavras estas que dedico a quem me fez lembrar e escrever a mais antiga lembrança duma vida já longa de quase 77 anos,
para ti "bettips", com um beijo,
theo

6 comentários:

Anónimo disse...

o importante está cumprido, e a "betips' pôs-te a escrever!

começaste por memórias, memórias familiares, o que corresponderá ao momento que vives, de introspecção. as memórias é uma tua faceta de escritora que todos apreciamos. viveste épocas e acontecimentos que nós só conhecemos ou de livros ou de cinema, ou de "te" ouvir contá-las. e tu conta-las com um sentimento muito forte, escrita emocionada e que emociona

mas há outra faceta escritora em ti que, acredito, igualmente ressurgirá: a da ficção. aqueles cenários mirabolantes que engendravas e se quiseres voltas a engendrar, 'Miss Marple' :-) até aposto que te dava um grande prazer imaginar a trama e desenvolvê-la, ver os pontos onde armadilhavas o texto para deixar o leitor desprevenido em relação ao final... tou enganado? nop!

ao trabalho, mulher!

C/G

bettips disse...

Gostei MUITO! Todas nós tivemos esses momentos sorrateiros. Tal como C/G disse, é pôr cá fora essas lembranças que nos falam de cenários de décadas, de ternura.
Fico um pouco feliz por saber que ajudei a levantar um pouco "a memória" dos sentimentos, afinal, o que mais interessa nesta vida de "praticismo".
Com as devidas diferenças, fazemos isso com os filhos, netos e bisnetos - agora que se acabou o "contar de histórias, ao menos saberemos com preservá-las!
(eu li algumas coisas para trás...!)
Um abraço

th disse...

Meus queridos, me esperem...lol
o tal de contar "estórias", não acabou não, ando já a congeminar uma...eheheheh
Beijos, th

Carlos Gil disse...

;-)

Anónimo disse...

Vim ler-te agora.Tenho de confessar
que faz já bastante tempo que não vinha ler-te e...deparo-me com estas memórias escritas com tanto sentimento e ternura que me fizeram arrepiar de doce emoção.
Bem hajas por teres partilhado connosco e continua porque pouca gente tem o condão de utilisar esta escrita doce e elegante como tu fazes. Bjs Paula(Almeirim)

th disse...

Obrigada meus amigos, vocês são um incentivo para mim, para continuar com escrevendo os meus registos.
Espero não vos decepcionar, com um beijo, th