22.2.06

A Culpa IV

á dois dias que ninguém tem sossego cá em casa.
Alberto foi libertado sem culpa formada porque alguém, não sei quem, foi em sua defesa justificando a presença na vivenda onde era acusado de entrar sem permissão. Agora o que ele tinha ido lá fazer eu não sei, que ele só contou para o Júlio.
Alberto e Júlio eram primos direitos, filhos de duas irmãs gémeas; eu e minha irmã considerávamo-lo nosso primo por o conhecermos desde miúdas e por Sara sempre ter sido a namoradinha de Júlio.
Os dois sempre foram muito cúmplices quer nas brincadeiras quer em assuntos mais sérios. E nós sabemos como os homens são leais entre eles. Por isso apenas soubemos que Alberto tinha sido apanhado dentro duma propriedade sem que para isso tivesse autorização dos donos.
Safou-se e nós ficamos sem saber ao certo o que na verdade se tinha passado tanto antes como depois.
Há dois dias que ele não sai do quarto, sem se alimentar direito e ouço-o andar de um para outro durante a noite.
………………………….
Acabou de chegar uma carta para ele, entregue por um rapazito, vindo da Vila, segundo nos disse a Rosa.
Fui lá acima entregar-lha; ficou a olhar para mim, com a carta na mão sem a abrir, eu olhando para ele, sem saber o que fazer.
Dei meia volta e desci…espero que as coisas se esclareçam e possamos viver …
Meu Deus que barulho foi este? Parecia um tiro…


20.2.06

A Culpa III

evantei-me tarde depois de uma insónia que não me deixou dormir por longas horas em que estive a pensar sobre os acontecimentos dos últimos dias.
Ouvi carros que saíam; minha irmã tinha tido visitas depois do jantar a que eu não me apetecia estar presente. Mas por volta das quatro ouvi distintamente o motor de um carro que entrava, e pouco depois passos no corredor que dava para o quarto de Alberto.
Fiquei portanto muito admirada quando à hora do almoço, julgando-o ainda a dormir, recebemos um telefonema da polícia a comunicar-nos que o Sr. Alberto Gusmão tinha sido preso e pedia que lhe enviassem o advogado de família.
Meu cunhado disponibilizou-se de imediato para tratar do assunto e nós ficamos à espera de notícias, apreensivas e preocupadas.
Eis que o telefone toca, vou ver se é o Júlio a dar-nos conta do que se passa com o Alberto.
Já volto…

19.2.06

A Culpa II


hovia e ventava quando as visitas chegaram ontem para o jantar. O nervoso fazia-as rir, roupas e guarda-chuvas esvoaçando numa dança tomada de pânico.
Os aperitivos aqueceram os corpos, a lareira as roupas, a boa convivência os amigos.
O jantar correu bem, como era costume, outra coisa não era de esperar da ciência culinária de Rosa, a nossa velha Rosa.
Éramos sete, sendo eu a única sem par, a caminhar para tia sem sobrinhos…
De Alberto nem sinal.
Por isso me assustei quando o vi entrar na cozinha hoje de manhã, tinha um olhar esquivo, mãos e cara arranhadas.
Que te aconteceu? Perguntei meio assustada.
Nada de grave, nada de grave, caí, disse ao ver-me aflita.
Como, onde e o carro?
Vim a pé, o carro avariou.
Que andas tu a fazer? Vi-te ontem à tarde.
Viste, mas não viste, ouviste? Depois eu conto-te, agora não, ainda é cedo



A Culpa I

Ontem não voltei a ver o Alberto, e como toda a gente deixa os carros no pátio, ninguém deu pela falta do Audi. Foi hoje, quase perto do meio-dia, que algo de estranho voltou a acontecer. Tinha ido um pouco à praia e ao voltar para casa passei pela vila a comprar umas coisas que a Rosa me tinha pedido para lhe levar para o jantar, íamos ter visitas. Quando estava na caixa, a pagar, ouvimos grande alarido na rua e um carro que passava a grande velocidade pela estreita ruela, quase atropelando um velho transeunte que ia a passar. Era nem mais nem menos o Alberto no Audi…seguido de perto de um outro carro, descapotável, com uma loira a conduzir. Logo que me foi possível dei uma volta pelas redondezas para ver se os via, mas tinham desaparecido da mesma maneira rápida como tinham aparecido. Claro que a minha curiosidade é muita e confesso que estou deveras intrigada com a atitude inusitada de Alberto, homem sempre sem grandes rasgos de imaginação para aventuras ou jogos de qualquer espécie.

17.2.06

A Culpa

The Phallic's Culpa Acrylic & Canvas




inha acabado de tomar o pequeno-almoço quando olhei pela janela e vislumbrei o Alberto que vinha subindo o caminho que conduzia à garagem.
Vinha a passo largo e meio desconfiado, olhando para todos os lados.
Trazia um saco que devia conter algo pesado, pela maneira como o segurava, que mudava de mão de vez enquando.
Retirei-me para dentro antes que ele se desse conta que eu o vira, pois a sua atitude me pareceu de certo modo suspeita e intrigante.
Pouco depois ouvi um motor a arrancar e Alberto que saía para a estrada, quase sem fazer barulho, ao volante do Audi velho que quase ninguém usava.
Desci à garagem para ver se descobria alguma coisa que pudesse explicar a maneira de agir furtiva e misteriosa do meu bondoso primo.
Nada, a não ser o facto de ali faltar o único carro que toda a gente evitava conduzir, dada a sua história, quando ainda restavam dois, prontos a ser usados.