12.2.06

Gripe


Há dois anos que não ia à cama com gripe, desta vez não escapei.
Foram só dois dias, que não gosto de faltar aos meus compromissos.
Com antigripais e agasalhos consegui melhorar.
Lembrei-me então como era no antigamente, quando eu era miúda, que nessa altura costumava ter muitas infecções de garganta.
Minha mãe tratava-me com gargarejos de limão com açúcar e emplastros de papas de linhaça com mostarda no peito e costas. Gostava do cheiro daquilo, mas o mesmo não acontecia com a ardência que a papa provocava.
O certo é que a coisa resultava.
Se por acaso sangrava do nariz, o que era frequente, colocavam-me frente a um alguidar com água e vinagre com que fazia inalações para estancar o sangue.
Sobretudo não saía da cama senão ao fim de uma semana e apenas por um espaço pequeno de tempo, à tarde.
Naquele tempo não conhecia a palavra stress…

11.2.06

O Acidente


avião da Força Aérea Uruguaia que levava um grupo de jovens para uma partida de rugby no Chile caiu na Cordilheira dos Andes em 13 de outubro de 1972. Dos 45 passageiros, 12 morreram no momento da colisão. Com o passar dos dias, outros passageiros não agüentaram as conseqüências dos ferimentos sofridos, das baixas temperaturas e de uma avalanche de neve que desabou sobre o aparelho 16 dias após o acidente e acabaram morrendo.Com o encerramento das buscas, os sobreviventes tiveram que se organizar para continuarem lutando pela vida. O avião foi adaptado para abrigá-los durante a noite, mas o maior problema era a falta de alimentação. Para não morrer de fome, o grupo teve que se alimentar da carne dos companheiros mortos, a experiência mais chocante para eles. No dia do resgate, apenas 16 deles ainda estavam vivos.Para mais informações sobre esta palestra, entre em contato com a Palestrarte - (11) 5052-8043/ 7396 info@palestrarte.com.br


Foi depois de ver um documentário sobre o desastre, com os sobreviventes que, ao vê-los, se me colocou a questão: que faria eu numa situação semelhante? Quais são os nossos limites? O que nos pode levar a ultrapassa-los tornando-nos covardes ou heróis?
Em situações limite seríamos capazes de matar, cometer heroicidades ou actos canibalescos?
A pergunta fica no ar…eu não tenho respostas…

5.2.06

A Meu Pai


Meu pai* era bombeiro, bombeiro voluntário.
Quando fazia piquete eu e o meu irmão disputávamos o lado dele na cama da minha mãe.
Lembro-me que era charmoso e era eu que lhe polia as medalhas e aprumava a farda, o bivaque sempre bem dobrado pelos vincos, o capacete reluzente.
Quando voltava contava-nos as histórias da noite, o gato que se empoleirou numa árvore, o bebé que não esperou para chegar à maternidade e nasceu na ambulância, até aquele desastre em que dois dos seus companheiros morreram num desastre do pronto-socorro. Também ele ficou muito queimado num acidente com terebintina, creio, que se encontrava num incêndio a que acorreu. Fomos vê-lo ao hospital onde entramos sem entraves apesar de nem sequer ser hora de visita, eu e meu irmão, dois miúdos afoitos e aflitos que ninguém ousou questionar.
Faria hoje, dia 5 de Fevereiro, 98 anos...vi-o pela última vez faz hoje 22 anos, embora semi-inconsciente, ainda me sorriu.
Recordo-o como um pai ausente, dedicando os seus tempos livres ao seu voluntariado, à Corporação dos Bombeiros Voluntários Portuenses, onde era Comandante à data da sua morte em 2 de Março de 1984.
Separou-se de minha mãe numa noite de Natal, para seguir o seu coração e passamos a vê-lo cada vez menos e cada vez mais distante. Mas deixou marcas, a sua sensibilidade, a sua humanidade, a sua dedicação por uma causa.
No entanto tenho saudades do Pai que não cheguei a ter...e do que tive nos raros momentos de nós...

*na foto com um dos vários trofeus que ganhou no desempenho como bombeiro

1.2.06

Ludovina


Ludovina, cujo invulgar nome a tinha já feito passar embaraços, era uma senhora simpática e que ainda conservava traços duma beleza doce e gentil.
Vivia sozinha, embora tivesse a visita da sobrinha dia sim, dia não, não se sentia só pois para além de se ocupar de todos os trabalhos de dona de casa ainda dava assistência a uma vizinha acamada e muito mais velha do que ela.
Logo de manhã cedo ia à padaria buscar pão, ainda quente, com que preparava o pequeno-almoço, que levava também à D. Elvira, a quem ajudava a fazer a higiene diária. Uma vez por semana tinham uma mulher-a-dias que durante todo o dia lhes fazia os trabalhos mais pesados.
Ludovina era a mais velha de quatro irmãos, dos três rapazes um falecera num desastre de automóvel e os outros dois eram casados e viviam longe, lá para o Norte.
Ana, a sobrinha, vivia em casa duma tia, da parte da mãe, desde que viera para Lisboa estudar.
Quando de dum dia para o outro D. Elvira piorou de tal maneira que foi preciso interna-la, Ludovina foi quem a preparou e avisou a única família que lhe restava, uma prima que vivia do outro lado do rio e a quem tinha sido feito um testamento, sendo ela a única herdeira da razoável fortuna que ainda restava dos avós de ambas.
Com D. Elvira no hospital, sobrava tempo a Ludovina, que começou a pensar numa maneira de ser útil e se ocupar para não cair na monotonia dos dias.
Foi então que se lembrou de retomar, embora actualizada, a actividade que era a sua antes de se casar.
Tinha-se casado muito tarde e enviuvara cedo, por isso nem era assim há muitos anos que tinha sido tradutora de uma empresa bem cotada da capital.
Com acesso às novas tecnologias até iria ser bem mais fácil executar o trabalho para o qual estava bem preparada.
Algumas das suas leituras eram sempre na língua original, o inglês, pelo que se achava capaz de continuar o trabalho que desempenhara tantos anos.
Ana tinha-a incentivado e vinha-lhe fazer companhia agora apenas uma vez por semana, mas sempre radiante, estava apaixonada e queria ir viver sozinha, logo que acabasse o curso, pois emprego já tinha.

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Passaram quatro anos, D. Elvira tinha morrido, deixando a Ludovina, que continuava o seu trabalho de tradutora, uma pequena pensão enquanto fosse viva.
Ana tinha uma vida razoavelmente tranquila, não fora ser considerada à margem da sociedade por viver com a companheira que escolhera e que amava de verdade. As duas se completavam e sentiam um grande carinho por Ludovina, que depois de um período de reflexão as aceitou como um casal.
Neste instante ouvem as notícias na televisão que versam o casamento entre homossexuais.
O caso de duas lésbicas que pretendem casar.
O BE quer levar à AR a discussão que visa oficializar tantas uniões de facto.
Ludovina fica pensando que se lhe dessem outro nome, em vez de casamento, seria bem mais fácil conseguir consensos.

20.1.06

STOP!


Faz hoje 2 anos que deixei de fumar, precisamente no dia 20 de Janeiro de 2004.
Acendi um cigarro e a meio decidi que já não o ia fumar até ao fim.
Quando me apeteceu o seguinte, disse para mim mesma: este não vou acender!
E assim um a um fui deixando de consumir o maço e tal que fumava por dia.
Fez-me falta a companhia ao princípio, nas minhas noites solitárias.
Até hoje não prevariquei e estou em crer que o vício se extinguiu para sempre.
Por esse motivo hoje posso dizer que estou muito contente comigo mesma e muito orgulhosa.
Não vou dar conselhos a ninguém nem sequer fazer apologias, apenas lhes digo que houve várias coisas que melhoraram substancialmente, a começar pela saúde e pela bolsa.
Como recordação ficaram as paredes amarelas, as roupas com buracos de queimaduras e o meio cigarro que não fumei até ao fim.