10.4.05

Sopeiras e Magalas


Por causa deles, ao Domingo, namorar só em casa que a rua era para sopeiras e magalas, dizia a minha mãe, que nunca me deixou sair ao Domingo com o namorado.
Maria, que era corcunda, e me ensinou a dançar enquanto cantávamos:
Micas!
Compra-me uns sapatos,
Que sejam baratos
P’ra dançar o charleston...
Nunca foi nossa "sopeira", foi sim a nossa criada de fora, que as havia de dentro também, eram as que tinham cama, mesa e roupa lavada, a troco de todo o serviço.
Tinha casado tarde, e logo que pôde montou o seu próprio negócio, fazendo doces e salgados para festas, casamentos e baptizados como fariam muito mais tarde, depois do 25 de Abril, quantas para sobreviver, as senhoras burguesas, e não só, despojadas que foram dos seus bens e terras, divorciadas dos altos executivos saneados. Muitas dessas senhoras ajudadas pelas tais criadas da (pela) família.
Depois eu cresci e já no pós-guerra, fui estudar à noite, e ajudava a minha mãe na lide da casa, pelo que dispensamos a já nessa altura chamada de empregada e me tornei assim muito “prendada” e no que então se designava por "um bom partido". Um ano antes de casar deixei os estudos e comecei a bordar o enxoval... (suspiro)!

9.4.05

La Lys


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Desde miuda que a batalha de La Lys sempre me faz recordar uma criada que tivemos, cujo marido tinha estado debaixo do fogo alemão e saído ileso. A mesma que me ensinou a dançar, imaginem, o charleston...

"A prova máxima para as tropas portuguesas deu-se a 9 de Abril de 1918, quando o comando alemão determinou que fosse lançada uma grande ofensiva sobre as linhas aliadas, incidindo todo o esforço inicial sobre o sector português. Foi o começo da chamada Batalha do Lys (nome do rio que banha a região)."

Mas desde o ano passado que a data tem outra dimensão, é dia de aniversário, sim, mas do nascimento de um magussinho chamado Gil, que nos enche de alegria e ternura. O multifacetado Web que gosta de brincar aos personagens e deles tem precisão para dar largas ao seu inventar...
E aqui deixo aquilo que nunca é demais para dar a um amigo...um abraço

7.4.05

Ser Alma


De tão insegura parecia frágil.
De tão sensível parecia triste,
De tão rica em paixão parecia urgente.
Amou muito e deu-se inteira, como se de cada vez fosse a última.
E quando finalmente repousou no meu regaço foi porque estava exausta!
Não voltou a sonhar aquele sonho breve e breve desencanto,
Estava dorida,
A Alma!

Luz crepuscular

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Maria Ana, vivendo muito tempo com Teresa, acabou por não ter namorado, depois de uma má experiência decidiu dedicar-se à pintura e à escrita; a companhia de Teresa e a amizade de Gustavo preenchiam a sua necessidade de afecto e a rotina diária deslizava sem grandes solavancos e o pai era sempre uma boa achega.
Gustavo estivera algum tempo afastado, depois da partida da mãe, algo se tinha passado com eles na casa à beira mar; acabaram por se encontrar por acaso e reataram a velha amizade e confidentes que eram, breve voltaram ao antigo convívio.
Foi Gustavo quem primeiro desconfiou das tendências homossexuais de Maria Ana, desde aquele "beijo-teste" no Inverno passado na casa da praia; ele teimava que beijar um homem ou uma mulher era a mesma coisa, se fecharmos os olhos...não chegaram a nenhuma conclusão, mas riram muito e Gustavo ficou convencido desde então que a ela, beijos de homem, jamais, pela reacção que teve e pela relação de quase amor com Teresa.
Pouco falavam da mãe, era tema doloroso para ambos, por enquanto. Ele tinha-se sentido preterido a favor de uma carreira auspiciosa, dizia-lhe ela na carta...
Gustavo tinha viajado quando Irene fez a apresentação do CD no Porto e quando voltou já ela tinha partido para o Brasil, evitando assim uma explicação desconfortável pelo modo como se tinha ausentado havia mais de dois anos. Não se veriam mais, muito embora, sem o saber, se tenham quase cruzado no calçadão, no Rio.
Assim se faz saber que Maria Ana nunca beijou Gustavo por estar apaixonada por ele.
Gustavo nunca esqueceu Irene e nunca compreendeu aquela carta naquela manhã.
Irene sempre teve dúvidas se teria feito a coisa acertada, e o seu êxito não compensou nunca a perda do seu último amor.
Teresa, conhecemos mal, mas não há dúvida que foi de grande apoio a Maria Ana e continua com ela, pelo que nos foi dado saber.
Um dia, se encontrar Irene por aí, vou-lhe perguntar porque seu cantar é tão triste!

3.4.05

Meia Luz

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Na cozinha a azáfama era grande. Pelos sons e cheiros se adivinhava petisco apurado a que boas risadas iriam dar por certo melhor sabor.
Foi directamente para o quarto e sentou-se à pequena escrevaninha onde era costume tomar os seus apontamentos e começou a missiva mais dramáticamente difícil que alguma vez lhe tinha sido necessário escrever. Na semana seguinte embarcou para Itália, alegando negócio urgente.
Só voltaria dois anos e meio depois.
Antes de partir colocou a carta no correio, não queria estar acessível quando Gustavo a recebesse.
Ajustou o cinto, pronta para a decolagem, rompendo definitivamente com aquele passado recente de que guardaria mesmo assim uma doce e gostosa memória.
Em casa ficaram a filha e uma amiga, que lhe faria companhia enquanto viajava, pensando ela que seriam apenas alguns dias.
Pouco a pouco foi aceitando a ausencia da mãe e organizando a sua vida, com a ajuda da Teresa e do pai, que embora casado de novo era presente quando necessário.
Finalmente chegou o dia do regresso, o CD iria sair em breve, o trabalho tinha sido complicado, demorado e nem sempre auspicioso, mas lá estava e de certeza que com um pouco de sorte e publicidade iria ser bem aceite pelo público e pela crítica.
O projecto seguinte já estava à espera no Brasil. Ainda não se sentia capaz de permanecer muito tempo em Portugal.
(o final para breve)