10.1.05

Mas não

Atiro com as primeiras palavras e espero que elas me devolvam algum calor.
Mas não.
Nelas encontro o mesmo frio, a mesma ausência.
E é então que me invade o cansaço, postura de braços caídos.
E de repente vejo que o caminho tem sido amiúde sombreado...
Que é feito da raiva? Da revolta das palavras e dos sentimentos?
Para onde foi a força que mantém os "anima" à tona, sem grande sofrimento?
Os Reis já partiram para seus reinos e costumam levar consigo aquela inquietação própria dos tempos.
Mas não.
Está frio dentro e fora de mim e eu tento não desistir!
Olho para mim e tudo em mim resvala para uma apatia desoladora.
Onde está essa outra que caminha tendo beleza no olhar, leveza nas passadas...
Virei minha pele do avesso e não vejo ofensa ou mal dizer, mas as palavras, essas, continuam frias e distantes, anjos caídos...
Há fragilidades escondidas, um mundo de contradições a ultrapassar...
Mas não.

Pantera

Já escolhi...

acho que o branco me fica bem...

Se puder vou ver o Mar, mas o da minha terra, graças à generosidade do Sr. Gil, o dono das mágicas palavras.

7.1.05

seis

Fui amada de várias maneiras,
amei como pude.

Dedilhando

A dimensão universal das coisas torna-nos angustiados.
Quando saímos do nosso bairro e começamos a olhar para o mundo para além das paredes do fim da rua, verificamos que tudo se tornou gigantescamente fora do nosso controle. É então que nos sentimos impotentes para estender o braço e puxar para lugar seguro aqueles que por ventura estão à beira do abismo.
Para quem quiser e puder aventurar-se pelos meandros de outras vidas vai-se sentir pequeno e sem esperança de poder modificar seja o que seja. Há no entanto pessoas capazes de fazer a diferença, de serem um ponto de referência para uma vida inteira, são as mulheres e os homens que com o seu exemplo e os seus actos nos marcam desde logo e para sempre.
Pena é que às vezes não sejam as mais amadas e fiquem distantes dos nossos afectos.
Neste mundo já não podemos viver sós, orgulhosamente ou não, neste mundo global o nosso respirar é o sopro que mantém viva a essência de uma outra existência, dum outro respirar.
Debaixo do mesmo Sol e Lua mas não da mesma bênção!

4.1.05

As Fitas

Quando, por volta de 1949, tendo eu então os meus 16/17 anos, resolvi ir ao cinema sozinha, foi como se tivesse conquistado um troféu, o de rapariga emancipada!
Lembro-me de ter pedido à arrumadora para me dar um lugar ao lado de uma senhora, como convinha, pedido que ela satisfez, com um certo alívio, penso eu agora.
Passava no Cinema Rivoli, no Porto, um filme italiano que eu tinha muito interesse em ver.
Recordo ainda passagens do argumento: jovens candidatas a qualquer coisa ocupam toda uma escadaria, que acaba por desabar, e são as histórias de algumas que nos são narradas, em pinceladas dramáticas, sendo a mais dramática de todas a de uma jovem que, tendo-se drogado, acaba por morrer.
Em geral as sessões tinham dois intervalos, e era na 1ª parte que sempre se exibiam as notícias e os documentários. Alguns cinemas, no intervalo tinham música ao vivo. O fosso da orquestra levantava e os músicos apareciam vindo, como por milagre, das profundezas.
Foi a época da nouvelle vague e do neo realismo italiano, cinema de culto duma juventude virada para os simples divertimentos e os inocentes "jogos", dos bailes com suas valsas, tangos e fox-trotes e dos amores castos.