31.12.04

cinco

A minha riqueza vem-me

das pessoas que gostam de mim

À procura


Tinha caracois e um laço no cabelo, que era escuro e comprido.
Em pequenina até lhe chamavam a menina dos caracois.
Procurava debaixo da cama, numa caixa onde guardava montes de fotografias, aquela onde, bem pequenina, ao colo do tio Abel, se passeavam ao longo da pérgola da Foz, junto à praia do Molhe.
E à medida que ia separando umas e outras ia recordando lugares e pessoas.
Ali estavam tios e tias e ela, bébé, ao colo de sua mãe, no terraço da quinta dos tios em Oliveira do Douro. As fotos sua e seu irmão quando fizeram a 1ª comunhão na Igreja do Bonfim e vestidos com fatos de marujo numa ida ao Monte da Virgem. Eram fotos a preto e branco, mas que ainda tinham côr na sua memória.
Agora na rua do Sol, a caminho da Escola Comercial, com colegas de que perderia o rasto mais tarde. Ali estavam a Olga, a Candida e a Natália, fixara os nomes, dos rostos já se não lembrava.
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Como tudo estava agora tão distante!
De vez enquando dava consigo a pensar perguntar à mãe sobre isto ou aquilo, quando se dava conta que a mãe já lá não estava para lhe responder...nem o pai nem o irmão...e então era como se um cordão umbilical se tivesse rompido.
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Suspirou fundo, arrumou as fotos e foi para o computador mandar uns mails para os amigos a desejar um Bom 2005.

29.12.04

As Portas

Há as portas que se abrem,
Devagarinho
Deixam entrar emoções,
Comoções.
Há as portas que se fecham,
Como impelidas por ventos
Fortes, devastadores!
Deixam-nos nos braços
Cansados
O destino dos afectos,
Impossíveis.

Quatro


Precisava de inverter a força desta espiral

que me puxa para baixo.

23.12.04

No Hospital

Andava por ali, meia sonâmbula e a tentar entender tudo o que lhe estava a acontecer, pois nem mesmo se lembrava direito o que tinha feito nessa manhã.
Um telemóvel tocara a seu lado, sobressaltando-a, precisava pensar com calma, não lhe doía nada e por isso não entendia o que fazia naquele hospital àquela hora, o relógio marcava as 14,15, quando devia estar a caminho da casa de um cliente.
As pessoas entravam e saíam, umas cambaleantes, outras de muletas e outras ainda de maca.
Nesse momento entrou uma enfermeira a chamar por uma D. Alzira, que agarrada a um rapaz jovem lá entrou para o que parecia ser um gabinete de atendimento. Ainda quis falar com ela, mas depressa se afastou para lá da porta de vaivém por onde entravam os que seguiam em macas.
Foi então que ouviu chamar pelo seu nome, o médico segurava uns papéis e olhava em redor à sua procura. Aproximou-se sem perceber muito bem o que o médico disse pois o barulho era muito naquela urgência, àquela hora.
É a senhora, perguntou, a senhora é que é a mãe da Alice... Alice, mas não vejo…a sua filha tem que ficar internada, o seu estado é grave, traumatismo craniano.
De repente foi como se a verdade explodisse dentro da sua cabeça!

O desastre! tinham tido um desastre de automóvel! o piso molhado, um guarda chuva que vindo de não se sabia de onde a obrigou a virar para a berma...do resto não se lembrava mais.
A sua última frase teria sido...vai lá atrás buscar-me o telemóvel...